2026 decide, 2027 revela: Os impactos dos presidenciáveis para 2027.

Depois de quase duas décadas circulando entre salas de reunião de indústrias, tesourarias de bancos, escritórios de agronegócio e startups de tecnologia, aprendi uma lição que se repete a cada ciclo eleitoral: eleição não é um evento de um dia é o início de um ciclo de decisões que vai bater na porta de cada empresa nos quatro anos seguintes. À frente da RZ3, onde ajudo companhias a recuperar créditos tributários e organizar seu planejamento fiscal, converso semanalmente com empresários de setores tão distintos quanto construção civil, saúde, indústria e tecnologia. E o assunto que mais aparece nessas conversas, às vésperas do primeiro turno de 2026, não é qual candidato vai vencer é o que cada um deles pretende fazer com a economia, com a reforma tributária, com o Judiciário e com a posição do Brasil no mundo.

O cenário eleitoral reúne candidaturas ligadas à continuidade do governo Lula, a direita capitaneada por Flávio Bolsonaro e nomes de centro e do campo liberal, como Ronaldo Caiado e Romeu Zema. São projetos diferentes de país, mas todos vão herdar os mesmos desafios: uma reforma tributária ainda em fase de regulamentação, um Judiciário com protagonismo ampliado e uma economia mundial mais fragmentada. É esse pano de fundo, mais do que as diferenças de discurso de campanha que vai determinar, na prática, qual Brasil empresários, investidores e trabalhadores vão encontrar a partir de 2027.

Economia: o termômetro que decide eleições

Nenhum tema pesa mais na urna do que o bolso do eleitor. Emprego, inflação, juros e poder de compra continuam sendo os indicadores que mais influenciam a avaliação de qualquer governo e é em torno deles que se organiza o principal racha ideológico da corrida presidencial.

Candidaturas alinhadas à esquerda tendem a defender maior indução estatal do crescimento, ampliação de programas sociais e investimento público em infraestrutura como motor de atividade. Já o campo liberal e a direita priorizam ajuste fiscal, redução do tamanho do Estado e reformas estruturais que abram espaço para o setor privado puxar a retomada. No dia a dia das empresas com quem trabalho, essa divergência aparece de forma muito concreta: políticas de crédito e custo de capital diferentes para a indústria, regras distintas de financiamento e regulação ambiental para o agronegócio, e níveis diversos de previsibilidade fiscal para o mercado financeiro a variável que mais pesa na hora de precificar risco-Brasil.

Para quem toma decisão de investimento com horizonte de mais de um ciclo eleitoral, o resultado das urnas vai indicar, sobretudo, qual gramática econômica prevalecerá pelos próximos quatro anos.

Reforma tributária: aprovada no papel, ainda em disputa na prática

A reforma tributária sancionada nos últimos anos já redesenhou a lógica da arrecadação brasileira, substituindo um mosaico de tributos sobre consumo pelo IVA dual, CBS e IBS. Mas aprovar a reforma foi apenas a primeira etapa: a regulamentação fina, que ainda se estende pelos próximos anos, é onde o próximo governo terá margem real de decisão e é justamente nessa fase que a RZ3 vem atuando ao lado de empresas de dezenas de setores.

Três frentes concentram a disputa entre os presidenciáveis: o ritmo da transição para o novo sistema, o nível de tributação efetiva sobre consumo e renda que resultará das alíquotas de referência, e o desenho das compensações para estados, municípios e setores com regimes específicos. Para varejo, indústria e serviços, cada uma dessas definições altera diretamente custo operacional, competitividade e a atratividade do Brasil para capital produtivo. A isso se soma uma dimensão menos visível, mas que sinto no dia a dia da recuperação de créditos: o avanço da malha digital de obrigações, eSocial, EFD-Reinf, DCTFWeb e, à frente, o split payment vai determinar quanta burocracia acessória sobra para cada empresa e com que velocidade créditos tributários são reconhecidos e liberados. Não é exagero dizer que a regulamentação da reforma vai produzir vencedores e perdedores setoriais tão relevantes quanto a própria reforma original.

Judiciário: o equilíbrio entre os Poderes em debate

A relação entre Executivo, Congresso e Supremo Tribunal Federal segue no centro do debate institucional. Nos últimos anos, decisões do STF, o avanço do que se convencionou chamar de ativismo judicial e as indicações para tribunais superiores ganharam peso incomum na conversa pública e os presidenciáveis se dividem quanto ao que fazer a partir daqui.

De um lado, há candidatos que defendem maior equilíbrio entre os Poderes, limitação de determinadas competências da Corte e reformas institucionais voltadas a ampliar a segurança jurídica. De outro, há quem defenda a manutenção do desenho atual, argumentando que a atuação do STF tem sido essencial para a estabilidade democrática e para a proteção da Constituição. Nas conversas que tenho com investidores nacionais e estrangeiros, esse é um dos pontos mais mencionados: previsibilidade regulatória e segurança jurídica dos contratos pesam tanto quanto indicadores econômicos na hora de decidir onde alocar capital.

Política internacional: o Brasil entre blocos

O próximo presidente também vai decidir como o Brasil se posiciona em um mundo cada vez mais dividido entre Estados Unidos, China, União Europeia e blocos emergentes, disputa que ficou ainda mais concreta depois do episódio recente de tarifas americanas sobre produtos brasileiros, que colocou comércio exterior e diplomacia lado a lado na pauta econômica.

Duas linhas se destacam entre as candidaturas. Uma aposta pragmática e multilateral, que busca fortalecer BRICS, Mercosul e organismos internacionais como forma de diversificar mercados e ampliar o protagonismo diplomático do país. Outra prioriza alinhamento mais próximo a Estados Unidos e ao Ocidente, com ênfase em acordos bilaterais e em temas ligados a segurança e liberdade econômica. A escolha entre essas linhas repercute diretamente sobre exportações do agronegócio, fluxo de investimento estrangeiro direto, cooperação tecnológica e a própria posição do Brasil em fóruns multilaterais nos próximos anos.

Uma leitura setor por setor

Somadas, essas frentes chegam a cada setor de um jeito diferente e é isso que vejo refletido na diversidade de empresas com quem trabalho todos os dias. O agronegócio acompanha de perto crédito rural, infraestrutura logística, acordos comerciais e regulação ambiental, variáveis que determinam competitividade e volume de exportação. A indústria depende diretamente do desenho tributário, do custo de energia, do crédito disponível e da segurança jurídica para decidir novos ciclos de investimento. O comércio e os serviços sentem no caixa qualquer mudança em consumo, tributação e renda. O setor de tecnologia observa com atenção incentivos à inovação, qualificação profissional e o ritmo de inserção do país na economia digital global inclusive porque é esse setor que fornece boa parte da infraestrutura por trás da própria digitalização fiscal. O mercado financeiro reage principalmente à política fiscal, ao controle da dívida pública e à previsibilidade regulatória o combustível que baliza o apetite por risco-Brasil. E o mercado de trabalho será impactado, direta ou indiretamente, por todas essas frentes combinadas, do ritmo de crescimento à qualificação profissional e aos estímulos à geração de vagas formais.

O que esperar para 2027

Se tem algo que aprendi transitando por mais de 50 setores da economia brasileira é que o resultado de outubro é só a primeira metade da história a segunda se escreve no ano seguinte, quando as promessas de campanha viram (ou não) política de governo. Independentemente de quem for eleito, há pelo menos quatro movimentos que considero praticamente inevitáveis em 2027.

O primeiro é que a convivência com o novo sistema tributário vai deixar de ser teórica: CBS e IBS entrarão em fases mais avançadas de cobrança, e 2027 será o ano em que muitas empresas vão descobrir, na prática e no fluxo de caixa, se ficaram entre os vencedores ou os perdedores da reforma. O segundo é que a tensão em torno do equilíbrio entre os Poderes não deve arrefecer: quem quer que assuma o Planalto vai governar com um Judiciário mais ativo e um Congresso fragmentado, o que significa negociação permanente para qualquer agenda econômica relevante. O terceiro é que o Brasil vai continuar tendo que escolher, episódio a episódio, entre pragmatismo comercial e alinhamento geopolítico e cada escolha vai repercutir diretamente sobre agronegócio, indústria e investimento estrangeiro. O quarto, e talvez o mais subestimado, é que a digitalização fiscal vai seguir avançando independentemente de quem vencer: eSocial, nota fiscal eletrônica e split payment são política de Estado, não de governo, e isso significa mais dados, mais cruzamento de informação e menos espaço para informalidade para o bem de quem já opera em conformidade, e para o desafio de quem ainda não se organizou.

Para quem lidera empresa, a lição que trago desses anos de trânsito entre setores é simples: 2026 é o ano de entender as regras do jogo que estão sendo definidas nas urnas; 2027 é o ano em que essas regras deixam de ser discurso e passam a valer no balanço de cada companhia.

O que fica para quem decide, investe e contrata

A eleição de 2026 vai muito além da escolha de um governante. Os presidenciáveis representam projetos distintos para a economia, para a regulamentação da reforma tributária, para a relação com o Judiciário e para a inserção internacional do Brasil. Independentemente de quem vencer, os próximos quatro anos serão decisivos para definir o ambiente de negócios, o ritmo de crescimento e o lugar do país no cenário global.

Para empresários, investidores, gestores tributários e trabalhadores, entender os impactos de cada projeto político deixou de ser curiosidade eleitoral: é, hoje, parte essencial de qualquer planejamento estratégico sério para os próximos anos e é esse o convite que deixo, como quem acompanha de perto mais de 500 empresas em mais de 50 setores da economia brasileira.

*Junior Rozante é CEO da RZ3, empresa de consultoria estratégica e recuperação de créditos tributários, com rede de relacionamento que reúne mais de 500 empresas em mais de 50 setores da economia brasileira.

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