A reforma tributária vai reescrever o software das empresas brasileiras

Impactos da CBS, do IBS e do Imposto Seletivo transformam ERPs e sistemas fiscais em um dos maiores projetos de tecnologia da década
A reforma tributária vai reescrever o software das empresas brasileiras

Há um erro de leitura que tenho visto se repetir em comitês de diretoria: tratar a reforma tributária como uma atualização de sistema, algo que a equipe de TI resolve com um patch e um treinamento de duas horas. Não é. A convivência entre o modelo atual de tributação sobre o consumo e o novo modelo de CBS, IBS e Imposto Seletivo, prevista para se estender de 2026 a 2033, vai atingir o núcleo operacional de qualquer empresa: o ERP, os sistemas fiscais, o financeiro, o jurídico e as áreas de comércio exterior. Não é um projeto fiscal. É um programa de transformação empresarial.

Os números explicam a urgência. Levantamentos internos que fizemos no Grupo RZ3 com clientes de diferentes portes e setores mostram que os ERPs vão precisar de ajuste em algo entre 70% e 90% do produto para operar sob o novo regime. Softwares fiscais, o núcleo de emissão de documentos eletrônicos e apuração de tributos, chegam a exigir de 80% a 100% de reconstrução. Não é exagero dizer que o software fiscal como conhecemos hoje será, na prática, recriado.

2026 e 2027: dois anos de sistemas rodando em paralelo

O calendário de transição é o que torna o desafio técnico particularmente severo. Em 2026, as empresas precisam adequar notas fiscais eletrônicas, NFS-e, CT-e e demais documentos fiscais para incluir os novos campos de CBS, IBS e Imposto Seletivo, revisar cadastros de produtos e serviços e rodar simulações de preço, margem e crédito tributário tudo isso convivendo com as regras atuais. Em 2027, a CBS passa a substituir PIS e Cofins, o Imposto Seletivo entra em operação e a cobrança do novo modelo federal começa de fato, o que exige uma revisão completa dos processos financeiros, fiscais e contábeis.

Na prática, isso significa que o motor de cálculo de um ERP vai precisar processar simultaneamente ICMS, ISS, IPI, PIS, Cofins, CBS, IBS e Imposto Seletivo durante vários anos de transição. Qualquer empresa que ainda pensa nisso como “mais um campo no cadastro fiscal” está subestimando o tamanho do problema.

Por que o ERP concentra o maior risco — e o maior investimento

Entre todos os sistemas de uma empresa, o ERP e o software fiscal são os que carregam o impacto mais crítico, segundo a matriz de prioridade que estruturamos para orientar decisões de CIOs, CTOs e CEOs. Não por acaso: são eles que sustentam a emissão de documentos fiscais, o cálculo de tributos, a apuração e a escrituração dos novos impostos. Nossa estimativa é que entre 60% e 70% de todo o investimento em tecnologia gerado pela reforma tributária vai se concentrar nesses dois módulos.

Mas o efeito se espalha por toda a arquitetura corporativa. Contas a receber e fluxo de caixa vão precisar identificar tributos destacados, tributos recolhidos e créditos recuperáveis linha a linha. Contratos comerciais terão de prever cláusulas de repasse de CBS e IBS e mecanismos de revisão automática de preço. Áreas de comércio exterior vão recalcular custo de nacionalização, crédito de importação e integração com o Siscomex. Até a folha de pagamento, embora com impacto menor, precisará relacionar créditos tributários vinculados a custos de pessoal e prestação de serviços. Softwares jurídicos vão ganhar protagonismo na gestão de teses tributárias, créditos acumulados e regimes diferenciados, num cenário em que o contencioso tende a crescer.

Uma oportunidade de mercado do tamanho do risco

Para as empresas de tecnologia fornecedoras de ERP, sistemas fiscais, financeiros, jurídicos e de comércio exterior, a reforma é ao mesmo tempo ameaça e oportunidade. Ameaça, porque exige reescrita de módulos inteiros, aumento expressivo de investimento em P&D e um volume de suporte a clientes que vai se estender, na prática, até 2033. Oportunidade, porque abre um dos ciclos de investimento mais relevantes da década para soluções de Tax Technology, automação fiscal e compliance tributário. Quem se antecipar e não apenas remendar o sistema atual sai na frente na disputa por um mercado que vai crescer justamente pela complexidade que a reforma cria.

O que deveria estar na mesa de qualquer CEO agora

A lista de projetos que uma empresa precisa executar em 2026 e 2027 não é pequena: atualização do ERP e do motor fiscal, revisão do cadastro tributário, adequação das notas fiscais, reformulação da formação de preços, simulações de impacto econômico, revisão de contratos comerciais e capacitação das equipes fiscal, financeira e contábil. No nível estratégico, entram também a revisão da arquitetura de sistemas, a governança de dados tributários e a estruturação de um BI fiscal capaz de sustentar decisões em tempo real.

Nenhuma dessas frentes é exclusivamente um problema de TI. Cada uma delas afeta preço, margem, contrato, caixa e risco jurídico. Por isso insisto, em toda conversa que tenho com clientes do Grupo RZ3, que o orçamento de ERP e sistemas fiscais para 2026 e 2027 tende a ser um dos maiores dos últimos anos para empresas brasileiras e que ele deveria ser tratado como investimento estratégico, não como custo de conformidade.

A reforma tributária vai, de fato, simplificar o sistema tributário brasileiro no longo prazo. Mas o caminho até lá passa por reescrever, literalmente, o software que faz a empresa brasileira funcionar. Quem entender isso a tempo transforma um período de transição regulatória em vantagem competitiva. Quem tratar como mais um ajuste de sistema vai descobrir, tarde demais, que o problema nunca foi tecnológico — era estratégico desde o início.

Junior Rozante é CEO do Grupo RZ3 e atua há mais de uma década conectando empresas de tecnologia, indústria e serviços em iniciativas de eficiência tributária e transformação de negócios.

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