FIM DA ESCALA 6×1

1. O que foi aprovado

O Senado aprovou, em dois turnos, em 14 de outubro de 2026, a PEC 221/2019, que reduz a jornada semanal e garante dois dias de repouso semanal remunerado, sem redução salarial. A proposta seguiu para promulgação. Por ser emenda constitucional, não há sanção presidencial: os prazos de adaptação passam a contar da publicação da emenda.

2. Como funciona a transição

MarcoJornada máximaO que muda na prática
Publicação (dia 0)44h (regra atual)Contagem dos prazos começa. Hora de diagnosticar escalas, acordos e contratos.
+ 2 meses42h semanaisPassam a valer as 2 folgas semanais. Cláusulas coletivas incompatíveis perdem efeito. Negociação coletiva pode ampliar a jornada diária para distribuir as 42h.
+ 14 meses40h semanais8h diáriasPatamar definitivo. Compensação apenas via negociação coletiva. Fim do sábado compensado como regra.

Quanto custa a hora? Simulação para salário de R$ 2.200

CenárioDivisor mensalValor da horaHora extra (50%)Variação do custo/hora
Hoje — 44h220R$ 10,00R$ 15,00—
Fase 2 — 42h210R$ 10,48R$ 15,71+4,8%
Fase 3 — 40h200R$ 11,00R$ 16,50+10,0%

Para manter as mesmas horas de operação, a necessidade teórica de quadro sobe ≈4,8% na Fase 2 e ≈10% na Fase 3 (44 ÷ 40 = 1,10). Simulação ilustrativa; os divisores efetivos dependem da convenção coletiva aplicável.

3. Como ficam os acordos e convenções coletivas atuais

  • Perda de efeito: após 2 meses da publicação, cláusulas de acordos e convenções sobre jornada e repouso incompatíveis com a emenda ficam sem efeito, não é preciso esperar o fim da vigência do instrumento.
  • Nova referência: 8 horas diárias e 40 semanais, admitida compensação por negociação coletiva.
  • Transição: acordo ou convenção pode ampliar a duração diária para distribuir as 42h, respeitados os novos descansos.
  • Folgas flexíveis: excepcionalmente, a negociação coletiva pode organizar o repouso de outra forma, garantindo média de 2 dias por semana no mês e ao menos 1 dia de descanso a cada semana de trabalho.
  • Regimes especiais (12×36, turnos ininterruptos, escalas de saúde e vigilância) poderão ser disciplinados por lei e exigem análise individual da norma coletiva.

4. Impactos para os colaboradores

  • Dois dias de descanso por semana, um deles preferencialmente no domingo.
  • Salário nominal e pisos preservados, vedada redução nominal, proporcional ou de qualquer espécie.
  • Hora normal e hora extra mais valorizadas.
  • Quem já trabalha 40h ou menos não terá nova redução automática, mas passa a ter direito às 2 folgas.
  • Profissionais com diploma superior e remuneração ≥ 2,5 vezes o teto do RGPS podem ficar fora do controle de jornada (salvo concessão ou norma coletiva) o repouso continua protegido.
  • Riscos: troca de turnos, redução de novas vagas, aumento de terceirização/PJ e pressão por “combinados” informais.

5. Impactos para os empresários

  • Custo/hora +4,8% em 2 meses e +10% em 14 meses, sem contrapartida de produtividade automática.
  • O dilema operacional: contratar mais pessoas, reduzir horário de atendimento ou absorver horas extras com reflexos em férias, 13º, FGTS e verbas rescisórias.
  • Revisão obrigatória de escalas, dimensionamento de equipes, controle de ponto, folha, acordos coletivos e contratos com clientes.
  • Precificação: contratos de prestação de serviços com preço fixo por posto precisam de cláusula de reequilíbrio.
  • Contratos públicos: terão regra própria vinculada a aditamento para equilíbrio econômico-financeiro, com prazo máximo de 1 ano da publicação; após esse prazo, a redução se aplica independentemente do aditivo. Inclui concessões, permissões e PPPs.
  • MEI, ME e EPP: lei complementar poderá criar medidas transitórias condicionadas à manutenção de empregos. Não há dispensa automática.

6. Impactos no INSS (Previdência)

  • Arrecadação: novas contratações e horas extras ampliam a base da contribuição patronal (20%), RAT/FAP e terceiros (Sistema S, salário-educação), além do FGTS de 8%.
  • Para o segurado: como o salário é mantido, o salário de contribuição e os futuros benefícios não são reduzidos.
  • Risco de erosão da base: se parte das empresas migrar para informalidade, pejotização ou terceirização irregular, a arrecadação pode cair e a fiscalização tende a aumentar.
  • Empresas na CPRB (desoneração): a reoneração gradual da folha avança até 2028; o aumento de folha em 2027 coincide com uma alíquota patronal maior sobre salários.
  • RAT/FAP: jornadas excessivas e horas extras recorrentes elevam riscos de acidente e afastamento, com efeito no FAP dos anos seguintes.

7. Impactos na Receita Federal (RFB)

  • eSocial: alterações de jornada, horário e escala são alterações contratuais que devem ser informadas (eventos de alteração contratual e remuneração). Inconsistências geram autuações e cruzamentos com FGTS Digital.
  • DCTFWeb e FGTS Digital: recolhimentos maiores com horas extras e novas admissões; atenção à apuração correta para evitar multa de mora e de ofício.
  • IRRF: horas extras são tributáveis; aumento de remuneração variável pode mudar faixa de retenção.
  • Simples Nacional, Fator R: prestadores de serviço com folha maior podem atingir ≥ 28% da receita e migrar do Anexo V para o Anexo III (alíquota menor). Oportunidade de planejamento.
  • Reforma Tributária (CBS a partir de 2027): folha de salários não gera crédito de CBS/IBS. Setores intensivos em mão de obra terão aumento de custo não compensável o preço precisa absorver.
  • Fiscalização cruzada: RFB, MTE e INSS compartilham dados. Pejotização como “saída” tende a ser alvo prioritário.

8. Setores mais atingidos, ranking de impacto

SetorGrau de impactoPor quê
Supermercados e atacarejoMuito altoFuncionam 7 dias, picos no fim de semana, margem líquida baixa e folha intensiva.
Comércio varejista e shoppingsMuito altoDomingos e feriados são os dias de maior faturamento; escalas 6×1 predominantes.
Bares, restaurantes e food serviceMuito altoDemanda concentrada em noites e fins de semana; alta rotatividade e margens apertadas.
Hotelaria e turismoMuito altoOperação 24/7, sazonalidade e cobertura contínua de recepção, governança e A&B.
FarmáciasAltoLojas 24h e plantões; exigência de farmacêutico responsável em todo o horário.
Logística, transporte e armazenagemAltoCDs e operações 24/7; e-commerce com picos sazonais; jornadas de motoristas com regras próprias.
Segurança privada, limpeza, facilities e condomíniosAltoVenda de “posto” coberto 24h; contratos com preço fixo e muitos contratos públicos.
Saúde privada (hospitais, clínicas, laboratórios)Médio-altoMuitos já operam em 12×36, mas equipes de apoio e ambulatórios em 6×1 precisam ser revistos.
Indústria de turnos contínuosMédioTurnos de revezamento já reduzidos, mas áreas administrativas e de manutenção em 44h serão afetadas.
Construção civilMédioJornada de 44h com sábado; prazos de obra e contratos de empreitada precisam de reprecificação.
Agronegócio e agroindústriaMédioSafra e frigoríficos com operação contínua; sazonalidade de mão de obra.
Escritórios, call center e serviços administrativosBaixoMuitos já em 40h ou menos (teleatendimento tem regra própria); impacto concentrado na garantia das 2 folgas.

9. Impactos detalhados por setor

SetorComo opera hojeImpacto principalEstratégia recomendada
Supermercados e atacarejoEscala 6×1 com folga rotativa; domingo é dia forte de vendas.Contratação adicional para cobrir 2 folgas; maior uso de intermitentes e meio período; pressão sobre margem de 2% a 3%.Redesenho de escalas por fluxo de clientes; banco de horas negociado; autoatendimento; revisão de mix de jornada (parcial x integral).
Comércio varejista e shoppingsLojas abertas 12h/dia, 7 dias, com regras municipais e convenções de domingo/feriado.Horário do shopping não muda, mas equipe sim: mais pessoas por loja ou lojas com menos atendentes nos picos.Negociar com sindicato a distribuição das folgas no mês; dimensionar por curva de vendas; avaliar quiosques e lojas menores com horário reduzido.
Bares, restaurantes e food serviceOperação concentrada em almoço, noite e fim de semana; turnos partidos.Mais garçons e cozinheiros nos picos; custo de hora extra elevado; risco de fechar 1 dia na semana.Turnos escalonados; avaliar fechamento estratégico em dia fraco; revisar cardápio e preço; contratos intermitentes bem documentados.
Hotelaria e turismo24/7, alta sazonalidade (férias, feriados, eventos).Cobertura de recepção, governança e A&B exige até 10% mais quadro; temporada fica mais cara.Escalas 12×36 onde permitido; polivalência com treinamento; reprecificar diárias e pacotes para 2027.
FarmáciasLojas 24h e plantões com exigência de farmacêutico.Escassez e custo de farmacêuticos; horas extras recorrentes.Rever cobertura técnica; tecnologia de atendimento; negociar escalas compensatórias com o sindicato.
Logística e transporteCDs 24/7, picos de e-commerce; motoristas com legislação própria.Até +10% de quadro em operações contínuas; aumento de frete.Automação de armazenagem; turnos fixos de 8h; cláusulas de reajuste em contratos com embarcadores.
Segurança, limpeza, facilities e condomíniosVenda de posto coberto 24h, preços fixos por contrato; muitos contratos públicos.Custo do posto sobe; contratos sem cláusula de reequilíbrio viram prejuízo; condomínios terão reajuste de taxa.Pedir reequilíbrio/aditivo formal (público: prazo de até 1 ano); revisar planilhas de custo; renegociar com síndicos e clientes privados.
Saúde privadaMistura de 12×36, plantões e ambulatório em 6×1.Apoio (recepção, higienização, nutrição) em 6×1 precisa ser readequado; reflexo em contratos com operadoras.Mapear cada regime; adequar convenções; renegociar tabelas com operadoras de saúde.
IndústriaTurnos de revezamento e administrativo em 44h.Administrativo e manutenção passam a 40h; possível perda de produção em sábados.Revisar turnos; ganhos de produtividade (OEE); banco de horas coletivo.
Construção civil44h com sábado; contratos por empreitada.Prazos de obra se alongam ou exigem mais equipe; reequilíbrio em obras públicas.Reprogramar cronogramas; reavaliar orçamentos de 2027; aditivos contratuais.
Agronegócio e agroindústriaSafra, frigoríficos e laticínios com operação contínua.Mais contratação temporária na safra; aumento de custo de processamento.Planejar safra 2027 com nova jornada; contratos de safra bem formalizados.

10. Compliance & Blindagem o que NÃO fazer

  • “Acordo verbal” para manter a escala antiga.
  • Folgas combinadas por WhatsApp sem registro formal.
  • Cartões de ponto pré-assinados ou “britânicos” (horários idênticos todos os dias).
  • Converter empregados em PJ para fugir da nova jornada.
  • Reduzir salário ou piso de forma disfarçada (corte de adicionais, prêmios, comissões).

Checklist de adequação — 60 dias

  1. Levantar todos os empregados por regime de jornada e escala (CNPJ por CNPJ).
  2. Mapear acordos e convenções coletivas vigentes e identificar cláusulas incompatíveis.
  3. Simular custo de folha, encargos (INSS, RAT, terceiros, FGTS) e horas extras nos cenários 42h e 40h.
  4. Redesenhar escalas garantindo 2 folgas semanais (1 preferencialmente aos domingos).
  5. Abrir negociação com o sindicato da categoria.
  6. Formalizar aditivos contratuais individuais e informar no eSocial.
  7. Revisar contratos com clientes, cláusulas de reajuste e reequilíbrio (inclusive públicos).
  8. Reprecificar produtos e serviços para 2027, considerando também CBS e reoneração.
  9. Avaliar enquadramento tributário (Fator R, regime de apuração).
  10. Ajustar sistema de ponto e treinar lideranças.

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