SÃO PAULO — Quando o Grupo Casas Bahia protocolou pedido de recuperação judicial, declarando R$ 17,3 bilhões em passivos e um prejuízo de R$ 10,1 bilhões em apenas um trimestre, o mercado teve a confirmação de um sintoma que os números já vinham anunciando havia meses: nem mesmo companhias com conselho de administração estruturado, auditoria independente e comitês de governança estão imunes ao aperto de crédito que atravessa a economia brasileira.
O caso é apenas o mais visível de uma lista que cresce a cada trimestre. Americanas, Oi, Gol, Braskem, GPA (Pão de Açúcar), Oncoclínicas, AgroGalaxy, Tok&Stok, Marabraz, Habib’s, Lupatech, 123 Milhas, Grupo Petrópolis, SouthRock — operadora da marca Starbucks no país, Dia Brasil, Polishop e Bombril entraram, nos últimos anos, para a mesma estatística: a de empresas de porte relevante que precisaram recorrer à Justiça, ou negociar diretamente com credores, para reorganizar suas dívidas. Varejo, aviação, energia, telecomunicações, saúde, agronegócio, alimentação e indústria praticamente não há setor de fora da lista.
Os números por trás da crise
Os dados da Serasa Experian dão a dimensão do problema. Em junho de 2026, mais de 9,1 milhões de Cnpj’s estavam negativados, somando R$ 232,9 bilhões em dívidas o maior volume da série histórica, 16,67% acima do registrado um ano antes. Cerca de 95% das empresas inadimplentes são micro e pequenas, e o setor de serviços concentra 55,7% dos casos. Por trás do número está o custo do dinheiro: com a Selic em 14% ao ano, o caixa das empresas vem sendo pressionado meses antes de os problemas aparecerem nos demonstrativos financeiros.
No campo judicial, a curva também não deixa dúvida. O Brasil saiu de 1.405 pedidos de recuperação judicial em 2023 para 2.273 em 2024 e 2.466 em 2025 recorde histórico, com 602 novos casos já registrados até abril de 2026. Entre 2022 e 2025, o crescimento acumulado foi de aproximadamente 534%; entre 2024 e 2025, de 132%. Há projeções de até 8,3 mil empresas entrando com pedido ao longo de 2026. Somando recuperações judiciais e falências, o país acumulou 9.610 ocorrências entre 2023 e abril de 2026 as falências, aliás, vêm em trajetória oposta, de 983 pedidos em 2023 para 234 casos registrados até abril de 2026, sinal de que mais empresas têm conseguido evitar o encerramento das operações.
A ascensão silenciosa da recuperação extrajudicial
Enquanto os números judiciais quebram recordes, cresce em ritmo ainda mais acelerado um instrumento menos visível: a recuperação extrajudicial, em que a empresa negocia diretamente com os credores antes de uma crise mais profunda, sem passar necessariamente pelo desgaste de um processo na Justiça. O número de companhias que recorreram a esse mecanismo saltou de 16, em 2021, para 84 em 2025; somente nos primeiros meses de 2026, já foram 33 novas adesões. Os passivos envolvidos somam cerca de R$ 109 bilhões, incluindo o maior caso já registrado nessa modalidade: a recuperação extrajudicial da Raízen, com aproximadamente R$ 65,1 bilhões.
GPA, Casas Bahia e Tok&Stok estão entre as companhias que, mesmo em dificuldade, optaram por negociar diretamente com credores em vez de partir direto para o processo judicial para reduzir custos jurídicos, preservar liquidez, evitar desgastes operacionais e ganhar agilidade na reestruturação.
A discussão sobre reestruturação empresarial deixou de ser predominantemente jurídica e passou a ser cada vez mais econômica e estratégica. Isso muda o tipo de conversa que uma empresa em dificuldade precisa ter: não é mais só uma questão de escritório de advocacia, é uma questão de caixa, de relacionamento com credores e de velocidade de decisão. Junior Rozante, CEO do Grupo RZ3
Riscos em cadeia, oportunidades reais
O crescimento das recuperações judiciais e extrajudiciais não fica restrito às empresas diretamente envolvidas. Uma companhia grande que atrasa pagamentos ou renegocia contratos pode impactar dezenas às vezes centenas de fornecedores, prestadores de serviço e transportadoras na ponta da cadeia. Bancos e financeiras, por sua vez, tendem a endurecer a análise de crédito e exigir mais garantias diante do cenário, o que encarece o crédito também para empresas saudáveis. Soma-se a isso o risco de desvalorização de ativos imóveis, marcas, equipamentos e unidades de negócio costumam ser vendidos abaixo do valor de mercado durante uma reestruturação e a possibilidade de maior concentração em determinados setores, quando concorrentes fragilizados são absorvidos por rivais mais fortes.
Do outro lado da mesma moeda, porém, está uma das janelas mais favoráveis dos últimos anos para quem tem caixa disponível. Ativos descontados, fusões e aquisições, créditos estruturados e dívidas corporativas com potencial de retorno elevado, e uma demanda crescente por turnaround, due diligence e Advisory de M&A compõem o outro lado do ciclo.
O maior risco não é a falência de uma empresa isoladamente, mas a redução de liquidez e o aumento da inadimplência ao longo de toda a cadeia econômica. Por outro lado, para quem está capitalizado e preparado, este pode ser um dos melhores ciclos das últimas duas décadas para comprar ativos, consolidar mercados fragmentados e capturar clientes de concorrentes enfraquecidos. — Junior Rozante
O que fazer nos próximos 12 meses
Para CEOs de empresas mais expostas, a recomendação central é preservar liquidez: aumentar o caixa disponível, revisar o capital de giro, renegociar dívidas antecipadamente e cortar despesas não essenciais, com a meta de manter caixa suficiente para até 12 meses de operação. Junto a isso, fortalecer a gestão de riscos de clientes e fornecedores, reduzir a dependência de poucos parceiros críticos e investir em eficiência automação, inteligência artificial e digitalização de processos aparecem como frentes prioritárias. Para empresas mais sólidas, a lógica se inverte: a pergunta estratégica passa a ser se, caso um concorrente entre em recuperação judicial amanhã, a empresa está preparada para comprar os ativos que ficarão disponíveis.
Já para investidores, o desenho estratégico varia por perfil. Os mais conservadores tendem a priorizar empresas com baixa alavancagem, forte geração de caixa e setores resilientes saúde, infraestrutura, tecnologia, serviços B2B, agronegócio eficiente e energia estão entre os mais citados. Investidores moderados olham para operações em turnaround avançado, governança fortalecida e créditos estruturados, enquanto os mais agressivos mapeiam distressed assets, créditos de recuperação judicial e operações de consolidação de mercado.
Em ciclos de crise, quem preserva caixa ganha opções; quem ganha opções captura oportunidades. Os próximos 24 meses devem representar uma das janelas mais relevantes da década para quem souber separar dois movimentos que caminham juntos, mas não são o mesmo: a fragilidade real de empresas superendividadas e a oportunidade concreta de reorganização, consolidação e geração de valor para quem chega a esse ciclo preparado. — Junior Rozante, CEO do Grupo RZ3
Dados citados nesta reportagem: Serasa Experian e SWOT Global Consulting, com compilação e análise de Grupo RZ3.
